Educar para a dor
Carta da diretora*
A dor é uma disciplina fundamental em nossa vida. Em todo o tempo de nossa existência, do nascimento até a maturidade, experimentamos perdas e desilusões. Estamos vulneráveis às doenças, à violência urbana e ao descaso do próximo. Nem todas as coisas acontecem da forma e no tempo que gostaríamos. Hoje estou aqui, não sei se estarei no minuto seguinte. Quão frágil é nossa vida, ao mesmo tempo, como ela é complexa!
Para facilitar nossa conversa, chamarei de “dor” a esse conjunto de fatos e circunstâncias que nos desinstalam e que podem trazer apreensão, tristeza, ou desconforto. Minha reflexão segue, portanto, nessa direção: se a dor é inerente ao ser humano, como contribuir na formação de nossas crianças e jovens para enfrentar esses momentos?
Uma das formas que temos para educar para a dor é não negar a sua existência. Deseducamos quando retiramos do caminho de nossos filhos os problemas que, de uma forma muito sábia, aparecem na medida ou na proporção de cada idade. A criança de quatro anos diz: “Meu colega me chamou de chato”. Esse é um problema do tamanho da criança que irá elaborar esse problema e buscar interiormente elementos para resolver essa questão. Se a família interfere tentando pensar e resolver por ela, irá retirar-lhe a rica chance de crescer.
Erramos quando amortizamos ou neutralizamos os pequenos exercícios que ensinam a lidar com a dor. Infelizmente, na melhor das intenções, cuidamos de nossos filhos de forma a retirar do seu caminho qualquer traço de tristeza, problema ou decepção, entretanto, a vida nos ensina, que nem sempre teremos pessoas dispostas a retirar as pedras que iremos encontrar pelo caminho.
Não existe gente de verdade, de carne e osso, se não tiver passado também pela experiência da perda e da dor. O lema do colégio, “Gente que forma Gente”, abrange essa perspectiva. Quantas vezes, diante de uma restrição imposta pela escola ouvimos: mas isso é gente que forma gente? Como se a formação fosse possível apenas pelo sim, pela concessão. Ao contrário, a permissividade não é formadora, mas sim, deformadora.
Quando olho para trás, percebo que boa parte daquilo que aprendi sobre a vida, foi forjada na ausência e na falta. Acredito que muitos compartilham dessa verdade, principalmente aqueles que vieram de uma infância de família numerosa ou com certas restrições financeiras. Isso não quer dizer que esse é o único e melhor caminho, mas, com certeza, é um contraponto ao quadro atual marcado pelo excesso, seja ele de conforto, de comida, de lazer “comprado”, de roupas ou brinquedos.
Retiramos do nosso vocabulário as palavras necessidade, luta, busca, restrição ou espera e, trocamos por outras que só indicam facilidades. Com isso, a tristeza virou depressão; desentendimento natural entre colegas virou “bullying”; ouvir um “não” virou intransigência; o limite virou perseguição. Tudo isso existe, portanto, como adultos e educadores precisamos acompanhar de perto esses processos, coibir os exageros, a opressão do mais forte sobre o mais fraco, e mais do que isso, servirmos de exemplo de conduta, de cordialidade e respeito.
Publicação autorizada pela autora.
*Aleluia Heringer Lisboa Teixeira, doutoranda em Educação – UFMG, diretora do Colégio Santo Agostinho – Contagem, MG.




